Marina Colasanti

 

Marina por ela mesma



Nasci na Eritreia, vivi em Trípoli, me mudei para a Itália, e em 1948, com 10 anos, minha família transferiu-se definitivamente para o Brasil. E, mais ainda, viajo nos livros, os que leio e os que escrevo. Sempre li, e, embora não tivesse pensado no início viver dos livros, nunca imaginei minha vida sem eles. Estudei pintura, fiz belas artes, me aprimorei em gravura. Mas a vida me levou para outro rumo e me tornou jornalista. Comecei no “Caderno B”, do Jornal do Brasil, fui redatora, cronista, subeditora, secretária de texto, chefe de reportagem, colunista, ilustradora. Paralelamente, trabalhava em várias revistas e em televisão. Minha segunda casa jornalística foi a Abril, na qual durante longo tempo fui editora de comportamento de uma revista feminina, atividade que me inseriu no universo das questões de gênero. Fiz mais televisão. Trabalhei em publicidade. Retomei a pintura. Fiz numerosas traduções. Mas, ao mesmo tempo em que ganhava a vida, ia escrevendo meus livros. Hoje são mais de 40, de contos, de poesia, ensaios, contos e poesia para crianças e jovens, além dos contos de fadas, que são para qualquer idade. A diferença de gêneros não cria nenhuma ruptura no meu fazer. Persigo os mesmos temas, me detenho sobre as mesmas inquietações, não importa para quem esteja escrevendo. E, através do fracionamento, busco a unidade.

 

Perfil Biográfico

 

Marina Colasanti (Sant'Anna) nasceu em 26 de setembro de 1937, em Asmara (Eritréia), Etiópia. Viveu sua infância na Africa (Eritréia, Líbia). Depois seguiu para a Itália, onde morou 11 anos. Chegou ao Brasil em 1948, e sua família se radicou no Rio de Janeiro, onde reside desde então. Possui nacionalidade brasileira e naturalidade italiana. Entre 1952 e 1956 estudou pintura com Catarina Baratelle; em 1958 já participava de vários salões de artes plásticas, como o III Salão de Arte Moderna. Nos anos seguintes, atuou como colaboradora de periódicos, apresentadora de televisão e roteirista. Ingressou no Jornal do Brasil em 1962, como redatora do Caderno B, desenvolveu as atividades de: cronista, colunista, ilustradora, sub-editora, Secretária de Texto. Foi também editora do Caderno Infantil do mesmo jornal. Participou do Suplemento do Livro com numerosas resenhas. No mesmo período editou o Segundo Tempo, do Jornal dos Sports. Deixou o JB em 1973. Assinou seções nas revistas: Senhor, Fatos & Fotos, Ele e Ela, Fairplay, Claudia e Jóia. Em 1976 ingressou na Editora Abril, na revista Nova da qual já era colaboradora, com a função de editora de comportamento. De fevereiro a julho de 1986 escreveu crônicas para a revista Manchete.Deixa a Editora Abril em 1992, como editora especial, após uma breve permanência na revista Claudia, tendo ganho três Prêmios Abril de Jornalismo. De maio de 1991 a abril de 1993 assinou crônicas semanais no Jornal do Brasil.De 1975 até 1982 foi redatora na agência publicitária Estrutural, tendo ganho mais de 20 prêmios nesta área. Atuou na televisão como entrevistadora de Sexo Indiscreto - TV Rio, e entrevistadora de Olho por Olho - TV Tupi. Na televisão foi editora e apresentadora do noticiário Primeira Mão -TV Rio, 1974; apresentadora e redatora do programa cultural Os Mágicos -TVE, 1976; âncora do programa cinematográfico Sábado Forte -TVE, de 1985 a 1988; e âncora do programa patrocinado pelo Instituto Italiano de Cultura, Imagens da Itália- TVE, de 1992 a 1993.

Em 1968, foi lançado seu primeiro livro, Eu Sozinha; desde então, publicou mais de 30 obras, entre literatura infantil e adulta. Seu primeiro livro de poesia, Cada Bicho seu Capricho, saiu em 1992. Em 1994 ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, por Rota de Colisão (1993), e o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil, por Ana Z Aonde Vai Você?. Suas crônicas estão reunidas em vários livros, dentre os quais Eu Sei, mas não Devia (1992) que recebeu outro prêmio Jabuti, além de Rota de Colisão igualmente premiado. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Dentre outros escreveu E por falar em amor; Contos de amor rasgados; Aqui entre nós, Intimidade pública, Eu sozinha, Zoológico, A morada do ser, A nova mulher (que vendeu mais de 100.000 exemplares), Mulher daqui pra frente, O leopardo é um animal delicado, Gargantas abertas e os escritos para crianças Uma idéia toda azul e Doze reis e a moça do labirinto de vento.

 

        

 

    

 

Colabora, atualmente, em revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna com quem teve duas filhas: Fabiana e Alessandra. Em suas obras, a autora reflete, a partir de fatos cotidianos, sobre a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade.

 

 

A Paixão da Sua Vida
Marina Colasanti


Amava a morte
Mas não era correspondido
Tomou veneno
Atirou-se de pontes
Aspirou gás
Ela sempre ela o rejeitava
Recusando-lhe o abraço

Quando finalmente desistiu da paixão
Entregando-se à vida
A morte, enciumada
Estourou-lhe o peito




Entre um jogo e outro
Marina Colasanti


Ter você nu na cama
que deleite.
E como a gente brinca
e rola e ri
para depois sentar
nos lençóis descompostos
o corpo ainda suado
e continuando sempre
o mesmo jogo
falar a sério
de literatura.

Te beijo no cangote
e quieta penso:
um outro amante assim
Senhor
que trabalho terias
pra me arrumar
se me tomasses este.

 

 

Rota de Colisão
Marina Colasanti



De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.


In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993




Antes de Virar Gigante
Marina Colasanti



No tempo d'eu menina
os corredores eram longos
as mesas altas
as camas enormes.
A colher não cabia
na minha boca
e a tigela de sopa
era sempre mais funda
do que a fome.
No tempo d'eu menina
só gigantes moravam
lá em casa.
Menos meu irmão e eu
que éramos gente grande
vinda de Lilliput.


In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993




Às seis da tarde
Marina Colasanti


Ás seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução

 

 

Mini Contos

Do livro "Contos de Amor Rasgados"

 



A busca da razão
Marina Colasanti


Sofreu muito com a adolescência.
Jovem, ainda se queixava.
Depois, todos os dias subia numa cadeira,
agarrava uma argola presa ao teto e,
pendurado, deixava-se ficar.
Até a tarde em que se desprendeu
esborrachando-se
no chão: estava maduro.




Conto em letras garrafais
Marina Colasanti


Todos os dias esvaziava uma garrafa,
colocava dentro sua mensagem, e a entregava ao mar.
Nunca recebeu resposta.
Mas tornou-se alcoólatra.




A quem interessar possa
Marina Colasanti


Abriu a janela no exato momento em que a garrafa
com a mensagem passava,
levada pelo vento.
Pegou-a pelo gargalo e, sem tirar a rolha, examinou-a
cuidadosamente. Não tinha endereço, não tinha remetente.
Certamente, pensou, não era para ele.
Então, com toda delicadeza, devolveu-a ao vento.





Que não lhe passe a vida inutilmente
Marina Colasanti


Há trinta anos estava na janela. Na janela comia,
na janela bebia, na janela vivia.
Na janela, encaixados os peitos em moldura de
braços e carnes, cochilava brevemente,
rápido desabar da cabeça logo reerguida.
Nada havia para se ver naquela rua. Nada acontecia.
Mas ela queria ter a certeza de que,
quando acontecesse, seria a primeira a vê-lo,
fato vivo, fisgado no arpão da sua vigília.
 

 

Pensamentos


O amor não é louco. Sabe muito bem o que faz, e nunca, nunca, age sem motivo.

Loucos somos nós, que insistimos em querer entendê-lo no plano da razão.

Mas amor e sofrimento são vida, e negando-se a eles você se nega a si mesmo.
 

 

Vídeos


Entrevistas a "Sempre um papo"
http://youtu.be/7JiniMCsPWM

Contos de fada, artes visuais...
http://youtu.be/DSW17sQQAZ4

Marina e Affonso
http://youtu.be/3yj8dEt73uU

 

 

 

 

Créditos:

Compilação e pesquisa: Nídia Vargas Potsch
Imagens Google
Wav: Chakra's Dream - Foaming
Arte e Formatação: JoiceGuimarães

 

 

 

Voltar