Bichinhos de Estimação 
 
Nídia Vargas Potsch

 
 
 
Muito comum, meu irmão mais velho, Paulo,  trazer tudo quanto era  "bichinho" diferente e ou machucado, que ninguém queria, para casa.
Mamãe ficava "enlouquecida" e nós, Carlos, o mano mais novo e eu, adorávamos. Era prazeroso estar em contato com  diferentes criaturinhas... jacarés, lagartos, macacos, aranhas, corujas, preás, besouros, nada de animais comuns como gatos,  cachorros ou canários e coelhos...  estes, tínhamos aos montes... rs. 
Certa vez Paulinho telefonou e disse para mamãe:
--- Mãe, posso levar um cabrito pra casa?  Ganhei um!
Mamãe, já escolada pelas excentricidades do moleque, indagou logo:
--- Vivo ou morto?
--- Ora mãe, vivinho, todo pretinho e branco.
--- E onde iremos colocar um cabrito vivo, Paulinho?
--- No quintal, mamãe.
--- E os vizinhos, filho? O cabrito vai berrar dia e noite e em apartamentos não se pode ter este tipo de bicho, mesmo em coberturas.
--- Ahhhhh!
--- Não traga não, por favor! Ouviu bem, menino?
--- Tá certo, mãeee ...
Mas este menino, tratado assim, já era um jovem servindo os Paraquedistas do Exército e não mais uma criança... Ah, meu irmão... só fazia loucuras e nós dois os menores, vibrávamos de emoção e alegrias incontidas.
Passados alguns anos de uma certa calmaria, chega ele em casa, uma noite, com uma cobra, toda verdinha e bem fina com mais ou menos um metro e meio de comprimento. Sua pele era lustrosa e muito bonita. Mas inspirava medo.  Não dava para chegar muito perto. Ninguém tinha coragem para dar uma olhadinha mais detalhada. Nossa cachorrinha de estimação deu de latir até mais não poder. Sinalizando situação de perigo, latia e pulava pra trás como quem alertasse: Sai bicho peçonhento, sai já daqui! Aqui é meu pedaço. Muito hilário...
Como já era tarde da noite e não havia como se livrar da cobra, Paulo teve a brilhante idéia de colocá-la num garrafão que nos servia de enfeite. Mas como tampar a boca do garrafão, sem matar a dita cuja? A cobra tadinha ficaria sem ar. Seria preciso algo furadinho tipo filó ou similar. Procuramos pela casa e não encontramos nada. Mamãe, para salvar a situação, como sempre,  deu uma perna de sua mais nova meia de seda.
Naquele tempo as meias das senhoras eram de nylon e não as meia-calças de agora.
Paulo arrumou a meia na  boca do garrafão, depois de colocar a cobra lá dentro com jeito, passou um forte elástico de escritório para ficar bem firme. Solucionado o problema, fomos dormir.
Era uma noite quente de verão e com muito calor, resolvemos dormir no terraço ao relento, vendo e contando estrelas. Morávamos num apartamento de cobertura. Era noite de luar e a luz forte refletia até no final do corredor que tinha uns sete metros de comprimento,  onde foi colocado o garrafão com a verdinha dentro.
Fomos dormir despreocupados em nossos colchonetes  de  verão. Lá pelas tantas, mamãe resolve ir ao banheiro e ouve-se um grito abafado:
--- Ai, Minha Nossa Senhora!
Uma confusão generalizada se seguiu ao grito e sonoras  gargalhadas ecoaram  pela varanda iluminada apenas pela luz da lua. Uma pequena cobra rastejando pelo chão com uma meia de seda enfiada na cabeça presa por um elástico... Cachorra latindo, gritaria generalizada por não se saber o que fazer. Como prender a bichinha novamente? Como voltar a dormir com sossego? Como afastá-la de mamãe que estava mais perto? Paulo não teve dúvidas: passou a mão no seu trinta e oito,  na época ele era Detetive de Polícia e portanto tinha porte de arma, deu um tiro certeiro na coitada. Ela estava ameaçando mamãe com um bote, ainda enfiada na meia e tudo o mais...
Foi aquele silencio!
--- Nunca mais me faça uma coisa dessas,  está me ouvindo?
falou mamãe tão baixo que parecia sussurrar.
Até hoje não sabemos se por receio da cobra ou do tiro...
 
 
* * *
 
Cuide com carinho dos seus
"Bichinhos de Estimaçãos"... NVP.
 
 
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       @Mensageir@
     RIO, JUNHO 2006
 
 
 
Grata querida Rose pelo lindo back.
vestindo de Festa minhas Estorinhas ....NVP.