Da Série: HORA DE HISTÓRIAS!
 
   CONTOS DA MINHA VIDA EM FAMÍLIA:
 
 
 
 
 
                                        O HÓSPEDE.
 
                                     Nídia Vargas Potsch
 
 
 
 
 
     Seu Tibúrcio era um mineiro muito amigo de meus bisavós. Guloso como quê! Sempre que tinha que sair da roça para ir à cidade, arranjava um pretexto para visitar meu bi-vô Zeferino "por mode de sabê "...  se ele precisava de alguma coisa da cidade grande. Além de muito amigos Tibúrcio e meu bisavô eram cumpadres. E ele se achava no direito de aparecer na casa da bisavó à qualquer hora do dia ou da noite, principalmente no horário das grandes refeições ou seja, almoço e jantar.
   Chegava quando bem entendia e sem cerimônias ia logo puxando a cadeira da mesa da sala de jantar e tomava imediatamente seu lugar... era muito despachado e vivia contando  "causos" e distraindo todos à sua volta.
      Nesta manhã, o almoço era típico mineiro:  arroz, feijão, carne de porco, couve e uma deliciosa farofinha de ôvo que ninguém fazia tão bem quanto a bisa Joaquina. O cheirinho da comida recém-saída do fogão, espalhava-se pela casa quando Tibúrcio chegou assoviando contente para anunciar sua presença.   O truque do assovio, desconfio eu, era para disfarçar seu estranho modo de falar. Ele falava com os dentes trincados e sua voz saía meio sibilante, talvez um vício ou mesmo defeito da fala, não sei ao certo.
                                 Bem recebido como sempre, tomou logo assento à mesa e começou a contar seus "causos" e comer vorazmente. Parava entre um prato e outro para tomar fôlego e dizia: Hum! Delicioso! Divino! E toca a comer e repetir mais uma vez... rs rs... Depois do terceiro prato,a cho que ele percebeu que estava exagerando e para não espantar a todos com seus modos, começou a comer mais devagar... mas sem acanhamento.  Estendia o prato para minha bizinha e dizia:  o ôvo tá pedindo mais farofa, cumadre...
E lá ia vovó Joaquina para a cozinha preparar mais um pouquinho de farofa...Tibúrcio devorava tudo rapidamente e estendia o prato novamente;  Cumadre, não é que  a farofa que tá pedindo mais ôvo?
 E Lá ia vovó pacientemente fritar mais um ôvo. Ele comia quase tudo deixando sempre um restinho e chamava a bi-vó novamente. Cumadre? Já sei Seu Tiburcio. O que é agora , o ôvo tá pedindo mais farofa, né ? Não é que cê advinhou cumadre ? É isso sim!
Quando ela levantou pela quarta ou quinta vez, bi-vô virou-se para o cumpadre e disse: amigo, assim não há galinha que aguente! E Tibúrcio, sem acanhamento algum replicou: me desculpe amigo e cumpadre, mas que nem a cumadre, nunca vi cozinheira tão brilhante. A farofa derrete na bôca e o ôvo ajuda a molhar e tempera tudinho... Êta delícia, sô !!! Só mais um pouquinho,tá ?
 
                               Eram inesquecíveis as passagens de Tibúrcio pela casa de meus bisavós. Sempre guloso, sempre pedindo mais, repetindo até se fartar  e contando  "causos" intrigantes e que mexiam com o imaginário de todos.
 
                                A partir daquele dia as crianças só queriam farofa de ôvo `a la Cumpadre Tibúrcio. com direito a repetir três vezes.... porque era o máximo de vezes permitido!
 
 
 

  @Mensageir@
 RIo,29/11/2001
 
 
 
 
 
 

 

Arte: Rosimary S. Santos