Da Série: HORA DE HISTÓRIAS!

   CONTOS  DA  MINHA VIDA

 EM FAMÍLIA:

 

SÓ DOIS DE CADA VEZ ...

 

                   Nídia Vargas Potsch

 

 Vovó Joaquina, lembram dela? Aquela do tiro certeiro... rs.  (relembre olhando o meu e-book) Bem, vovó ou melhor, bi-vó, morou em fazenda e sempre foi muito preocupada com a alimentação dos seus. Sua horta e seu pomar eram muito bem cuidados e sua comida caseira, hum, de dar água na boca.

                  Todas as manhãs ao levantar, preparava seu mingauzinho de milho bem cozido e cortava dentro dele pedacinhos de queijo de Minas que derretiam formando muitos fios. Tomava seu cafezinho preto e ia para a varanda do apartamento onde morávamos " pra mode de dá uma pitadinha" ... ora essa, uai!
                   Preparava com todo esmêro seu cigarrinho de palha num metódico e longo ritual, bonito de se ver...  Primeiramente, abria uma fralda impecávelmente alva, guardada só para essa função, de amparar o fumo picado, sobre seus joelhos. E picava pacientemente o fumo, guardando-o a seguir numa pequena bolsinha de couro. Depois, cortava a palha, todas do mesmo tamanho. Após preparar tudo isso, é que começava a enrolar os cigarrinhos um a um. Ficando todos iguaizinhos em tamanhos e recheio ...rs. Mas fumava somente dois a três por dia.  Naquela manhã chuvosa e fria de inverno, pedindo cama e um edredon bem fofinho, vó-bizinha levantou-se um pouco mais tarde do que de costume.  Colocou dois ovos para cozinhar, queria-os quentes. Comeu-os com pão fresquinho e um punhado de suas adoradas azeitonas pretas portuguêsas. Que café da manhã, para uma senhora de mais de oitenta anos ...rs.
                    Voltou para a cama e ficou nisso o dia todinho. O que não era de seu hábito.  Inquieta, dava uma voltinha até a varanda para olhar o  tempo, fazia um lanchinho e lá ia para sua cama outra vez, tirar seu cochilinho ... Continuou inquieta até a  noitinha  quando mamãe já pra lá de preocupada, com o vai e vem inédito, foi indagar o que é que estava havendo ... 
                    Aflita, mamãe perguntou: vovó me diz o que  é que há? Você está bem? Preocupada com alguma coisa? Será gripe?  Nada, minha neta, não se preocupe, sim?  Estou só com muito frio. Esquenta dois ovos para mim?  Ah! Coloca umas azeitonas também para o meu jantar.
                    Imediatamente mamãe foi para a cozinha, apanhou  uma rodela grande da bisnaga do jantar, procurou as azeitonas, e foi em direção a geladeira para pegar os  ovos. Mas oh, espanto! Onde estavam os ovos que  havia comprado de manhã? Essa, vó! Seria possível,  pensou... sem poder acreditar no que estava vendo. Minha nossa, e onde está a lata de  azeitonas pretas?
                    Vovó escutando, respondeu: acabou e joguei no lixo.
                    Vozinha, você não pode comer tantas azeitonas assim e muito menos todos os ovos. Na geladeira tinham doze ovos hoje de manhã. Você os comeu todos?  Comi, não, minha filha, só como dois de cada vez ...
                    Ah! E nesses dois de cada vez a senhora me comeu os doze  e todos num dia só!  Será que a senhora vai passar mal? Está se sentindo mal? Fala vovó! Como esta se  sentindo, indagava  mamãe já super preocupada pensando em ter que levar vó-bizinha ao pronto socorro por indigestão.
                    Calma, filha, tô só com frio...  Prefere um chá quente ou m cafezinho, vó? Ah! Minha menina, isso não dá "sustança" nenhuma, não revigora, preferia os ovos ...
                                  
                   E minha bizinha, um fiapinho de metro e meio de altura, gente miúda mas forte que nem ela só, não teve nada... absolutamente nada. Mesmo comendo doze ovos num dia só... rs... E aos 84 anos... Ah! E se encharcando de pão com azeitonas pretas. Êta aparelho digestivo!    kkkkkkkkk .....   
                  Mas como ela mesma dizia:   SOU VINHO DE OUTRA CEPA!!! 
 
 
           @Mensageir@
                                                    Rio, 02/09/2004  2:30h.
                                    
 
                                        COM CARINHO, Nídia.
 
 
 
                                    OBS Outros tempos, outros costumes e constituição física bem mais forte. Com todas as estrepolias, vovó viveu até os 88 anos de idade. Com bastante vigor, histórias lindas de vida para contar para seus netinhos e principalmente um verdadeiro exemplo de vida.
                            Saudades da senhora, bizinha do meu coração!
 
 
                                                                 
 
 
arte olga kapatti.k

 
 
 
 
 
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