CONTOS DE MINHA VIDA EM FAMÍLIA:

 

                   TIA JUDITH, A BELA DISTRAÍDA

               Nídia Vargas Potsch

 

       Tia Judith, xará de minha mãe, da qual herdou o nome,

   foi minha tia-avó muito querida. Era uma mulher belíssima e

   extremamente distraída que a seu tempo teve um desengano

   de amor e foi mãe solteira muito jovem, lá pelos idos de 1938.

       Nunca mais se casou! Era faceira, cuidava da pele com água gelada,

andava pela casa, nas suas folgas do trabalho, com uma fita amarrada

   na testa para não deixar criar rugas... rs.  Não andava de

   jeito algum sem maquillagem e sombrancelhas sempre feitas.

      Era adepta dos tratamentos naturais: chás, ervas, unguentos,

    água gelada, água quente e pasmem, gostava de ginástica.

      Naquele tempo chamava-se calistênica... rs.

      Pés e mãos eram objetos de cuidados especiais todas

    as semanas. Nos dizia que o rosto era tudo: um belo rosto

   é o cartão de visita da mulher! E os cabelos sua linda moldura.

      Portanto nunca deveríamos esquecer os dois.

      Uma vez por semana tomava o chamado "BANHO DE

      BELEZA"... Untava os cabelos com um bom óleo de 

   amêndoas por algumas horas antes do banho e o lavava duas

   vezes com um excelente shampoo chamado gotas de ouro.

  O enxague tinha que ser especial: água morna e água fria.  

  Nesta  sequência... Só sei que seus cabelos negros cacheados

 brilhavam lindamente e seus cachos eram os mais sedosos

 que se tem notícias na família... Após o banho de beleza,

  caminhava pelo longo corredor da casa onde morava com

  meus avós, equilibrando um grande dicionário na cabeça para

  dar uma boa postura. A prática levava uma meia hora

 diária, se possível. Perfumava-se toda e ia trabalhar bem

 cuidada e bonita. Era tecnica de enfermagem e trabalhava no centro da

  cidade num grande hospital de emergências. Muito querida por

  todos pois só tinha palavras de consolo e carinho.    

       Embora não fosse muito letrada, pois tinha apenas o

    ginásio completo, vivia lendo livros para se aprimorar sempre.

       Gostava de aprender!

       Adorava piadinhas de salão e meu irmão Carlos, o

    caçula, divertia-a muito contando as mais  "fresquinhas" que

    ele aprendia no colégio na hora do recreio.

       Sempre que íamos visitá-la, aprendíamos algo novo ou

    ouvíamos histórias do hospital.

      Mas seu grande problema eram as distrações...

      Ora esquecia e colocava sapatos de pares diferentes, ora

    eram as meias trocadas... uma preta outra de seda cor da

    pele... Mas seu rosto... impecável, como sempre!!! rs..

      Certo dia, saiu de casa com exagerada pressa, pois

    estava atrasada para o trabalho. Naquela semana havia

    chovido muito e a campanha de vacinação, no Rio, estava

    andando à pleno vapor. Todos tinham que prestar ajuda

    e colaboração intensa. Por isso ela não queria chegar tarde.

      Tio Dimas, verificando que titia tinha saído sem o seu

   guarda-chuva, correu atrás dela que já se achava no ponto do

   ônibus na esquina de casa. Ao chegar mais perto, ele caiu na

   risada e continua rindo muito as gargalhadas em direção a ela.

     Sem falar nada, pois não queria ser indelicado, entrega-lhe o

  guarda-chuva e ela muito simplesmente, olha para seus

  braços, tira o "ESPANADOR" debaixo do braço esquerdo e

   troca pelo guarda-chuva... rindo até mais não poder...

 

       Ah! Tia querida e distraída! Como amamos você!

      Quanto nos alegramos  com seus ensinamentos, com

   suas histórias de médicos e enfermeiras e sua terna   convivência.

       Guardaremos de ti uma feliz lembrança!

 

 

 

      @Mensageir@

           Rio, 23/ 07/2002.   

 

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